27/10/2016

Carta aberta à aluna que não entrou em medicina

Cara compatriota Maria Barros,
Bem sei que, muitas vezes, transformo os meus pequenos problemas em grandes tempestades. Talvez para dar algum entusiasmo ao que narro, talvez porque, na minha vida abençoada, são os maiores problemas que encaro. Porém, não posso ficar indiferente à carta que dirigiste ao senhor Presidente da República.

Escreve-te uma aluna pouco mais jovem que tu e que espera passar pelo mesmo processo de seleção pelo qual passaste. Também receio que a nota de um exame, que vale metade da entrada no curso que almejo, me trave. Trabalho incessantemente para ter uma margem de conforto, mas, mesmo assim, temo. Temo, e todos os outros temem também. Tu temes, o colega que se aplicou e conseguiu uma média superior à tua também temeu. O sistema funciona assim. Se é um bom sistema? Provavelmente não. Cabe-nos a nós adaptarmo-nos enquanto não o alteram.
As médias são desumanamente altas, dizes tu, mas quase dois mil alunos conquistaram o que tu não conquistaste. Porquê? Talvez terão tido mais sorte que tu, talvez se tenham aplicado mais do que tu. Já agora, sabes o quanto significa um fosso de três décimas? Milhares e milhares de jovens adultos que também ficaram pelo caminho. Tu perdes e outros milhares perdem, não fosse medicina um dos cursos mais procurados e mais prestigiados do país. Se é isto que desejas, porque não voltas atrás e trabalhas para melhorar os teus resultados? Ou será que o desejo de mostrar à mamã a bata de médico é maior do que a vontade de trabalhar por aquilo que convictamente afirmas ser o teu sonho? Eu sei que é uma chicoteada psicológica e compreendo-te, só que escrever uma carta ao representante máximo da nação não te vai colocar na lista de colocados da universidade próxima de casa.
Como te disse, levo uma vida abençoada. Os meus pais podem pagar-me o transporte até à universidade, podem pagar as minhas propinas. E aqueles que também sonham e não têm essa oportunidade, porque não têm disponibilidade económica para tal? Muitos deles vão ter de interromper a sua caminhada para angariarem dinheiro. Alguns, se calhar, nem terão oportunidade de voltar a estudar. Muita sorte tens tu, minha querida. Os teus pais podem suportar todos os custos que implicam estudares no estrangeiro. E os outros? Já pensaste naqueles que não têm a mesma oportunidade que tu e eu? Achas que a média desumanamente alta do curso em questão é o maior dos problemas daquilo a que chamamos de sistema de ensino português?
Finalmente, devo dizer-te que tenho uma grande amiga que luta pelo mesmo que tu. A diferença é que ela tem uma média, até à data, bem superior à tua. Sabes porquê? Porque ela trabalha arduamente pelo seu sonho. E, caso não consiga entrar em Lisboa (certamente conseguirá), espera entrar noutra universidade portuguesa menos prestigiada. Também eu, nós, quem te precedeu, percorre o caminho, por vezes atribulado, da chegada ao Ensino Superior. Faz parte do crescimento. Mas, minha cara, não sejas derrotista. Tenta de novo, melhora as tuas notas. Vais desistir assim de alcançar o teu sonho no teu país? Ou o que importa é ter um diploma fino daqui a uns anos? E, pelo amor de Deus, não vais morrer, nem precisas de escrever ao presidente. Há tantos outros na mesma situação que tu, que, neste momento, estão nas escolas secundárias a fazer melhoria de nota. Porém, há tantos outros que gostariam de estar na tua situação, mas, tal como destacaste, Portugal não é um país justo: há quem tenha de abandonar os estudos para alimentar a família, outros que nunca suportariam os custos de uma educação a nível universitário e outros tantos que, no silêncio que reina nesta sociedade egocêntrica, vivem de estômago vazio. Se fosses tu não gostavas, pois é, não gostava. A diferença é que tenho consciência que, se não entrar em direito, a culpa não será de alguém senão minha. Só mesmo para terminar, não é a tua família que tem de ficar desiludida, és tu.
Atenta na realidade que te rodeia.
Com os melhores cumprimentos,
Inês Elias

9 responses to “Carta aberta à aluna que não entrou em medicina”

  1. Ana Sofia says:

    Porque não é só na medicina que não se entra por décimas. Porque com 17,8 ainda se estuda medicina em Portugal. Se não ficou, foi porque não o quis.
    Porque, um dia, não quero perguntar aos meus filhos o que querem ser quando forem grandes e obter como resposta 'médico'. Quero sim ouvir 'quero ser aquilo que me vai fazer feliz'.
    Esta carta deu-me demasiada repugna, desculpem. Concordo plenamente contigo, mas enfim.
    Beijinhos,
    An Aesthetic Alien | Instagram | Facebook
    Há giveaway a decorrer no blog 🙂

  2. Vera Marques says:

    Com aquela sensação de quando acabas de ler um texto que diz tudo o que pensavas! Se ela realmente quisesse estudar em Portugal ela não desistia, ela continuava a lutar por isso. Como ela própria disse sempre teve uma vida ''abençoada'' sem grandes problemas. E o problema dela não são provavelmente as ''médias desumanamente altas'', é nunca ter ouvido um não na vida ou nunca teve de lutar realmente por nada!
    Estou agora no 10º, mas sei que de justo Portugal na educação tem pouco. Tive de me esforçar MUITO para chegar ao final do 9º ano com as notas que cheguei, apesar de já ter passado estudei ainda mais para os exames, porquê!? Para ter uma bolsa de estudo e poder pagar o meu instituto de inglês, mas chego ao final e não recebo nada porque apenas os alunos com subsídio recebem! Alunos esses que tiveram notas mais baixas que as minhas, se esforçaram bem menos do que eu e alguns nem precisam tanto ou menos delas do que eu! Se isto é justo!? Óbvio que não, e ainda nem cheguei à universidade!
    Desculpa o comentário enorme, adorei o teu texto!
    E boa sorte 😉

  3. Inês Elias says:

    Concordo contigo! Eu é que disse que tenho uma vida abençoada, não ela 🙂

  4. Inês Elias says:

    Capricho, atrevo-me a dizer que foi por isso que ela redigiu a carta. Concordo, a sobrevalorização de seguir medicina tem de acabar. Embora seja uma carreira essencial, não é a única com valor!

  5. Sinceramente acho isto o que escreveste um tanto ou quanto [muito desnecessário].
    Colocas aqui algumas das hipóteses que, pra mim, são absurdas, por isso é que o ensino está como está. Pelo que percebi, e extraindo bem o sumo do que escreveste, o sistema funciona assim e funciona mal [como dizes e bem] mas depois argumentaste que a moça devia ter-se aplicado mais, devia ter dado mais de si… Estiveste lá pra ver? Consegues medir o esforço que ela fez? E acima de tudo, consegues saber se ela, por ter ficado pra trás por 3 décimas, é menos merecedora que os outros que entraram? Achas mesmo que é uma média e o conseguir entrar no curso que quer que define aquela pessoa?
    Vou-te contar uma história, a minha história. Toda a vida quis medicina, toda. Quando comecei a ter ficio-quimica que sempre foi o meu calcanhar de aquiles, cheguei ao exame nacional e chumbei a cadeira por 3 décimas. Se achei justo? Não. Se estudei… Minha querida, nessa altura tu e outros já andavam com as perninhas ao léu na praia descansadinhos da vida e eu estudei praticamente metade de todo o meu verão, dia e muitas vezes de noite. Não chegou. Portanto, entrar em medicina estava longe de ser alcançável. E porquê? Porque estudei pouco? Porque isso mostra que não seria uma boa médica pediatra? Não. Porque a merda do sistema funciona assim. Não é à toa que em termos de educação estamos sempre na mó debaixo!
    Isto pra te dizer que no lugar dela teria feito o mesmo. Quantas vezes não pensei em revoltar-me contra o sistema!? Imensas. Mas o que isso me adiantaria? Isso mesmo, nada, provavelmente teria pessoas como tu a darem-me lições de moral que são só parvas.
    Hoje estou em psicologia, também é uma forma de ser médica… Da alma. Estou feliz, mas tive que ralar muito, talvez bem mais, para entrar na faculdade. E sabes o que te digo? depois de lá estar dentro percebi que o sistema é mesmo uma merda, injusto, sem nexo. Porque metade da gente do meu ano de curso são um atentado à saúde pública, quanto mais mental, não têm qualquer vocação para exercer psicologia e isso é um desperdício de vagas porque acredito que também em psicologia existam muitas "Marias" por aí afora, com vontade, com vocação, mas dependentes da merda da média, e no entanto aqueles também têm os papás e as mamãs a pagarem-lhe os cursos! Quantos encostados já apanhei ali e vou no meu terceiro ano de faculdade. Ainda há 1 semana tive que fazer um trabalho sozinha e eramos 4 pessoas. Porquê, perguntas tu? Porque o sistema não funciona e pessoas que não sabem o que querem da vida mas são sustentadas e estão lá a ocupar a vaga de quem queria muito aquilo, tal como eu.
    Mas vou mais além, quantas vezes foste ao hospital e foste mal tratada? Eu já fui muitas, nem sempre por doença porque tenho dois filhos portanto nem sempre corre tudo bem, e além disso já tive um tumor no ouvido, mas 90% das vezes que fui ao hospital seja lá pelo que for tudo o que vi foi "profissionais" desleixados, sem amor à camisola, na lei do menor esforço, sem empatia com a dor dos outros, sem humanidade nas palavras, sem cuidado. Mas estão lá a ganhar o deles à custa de todos nós, que juraram nos servir, tiveram média para entrar em medicina. Queres mesmo continuar com a treta das médias?
    Penso que és inteligente pra perceber a mensagem. 😉

    Fica bem.

  6. Inês Elias says:

    A minha resposta àquilo que colocaste vai cingir-se a poucos pontos, para que entendas melhor aquilo que escrevi.
    Em primeiro lugar, espero que conheças o valor expressivo da expressão «talvez terão tido mais sorte que tu, talvez se tenham aplicado mais do que tu». Caso não conheças, passo a explicar: não insinuei que ela não se esforçou, coloquei essa POSSIBILIDADE. Como, pelos vistos, o seu esforço não foi suficiente, recomendei-lhe que tentasse uma melhoria de nota.
    Em segundo lugar, assim como argumentas que não estive lá para ver se ela se esforçou ou não (embora nunca tenha colocado o esforço da Maria em questão), não podes argumentar que enquanto estudavas, eu estava na praia.
    Em terceiro lugar, não defendo conformismo quanto ao nosso sistema de ensino, que considero extremamente antiquado e mal formulado. Mesmo por isso, apresentei algumas soluções para a Maria ENQUANTO NÃO OCORREM ALTERAÇÕES NO SISTEMA (passo a citar, «cabe-nos a nós adaptarmo-nos enquanto não o alteram»).
    Em quarto lugar, em momento algum leste que eu acredito que as médias definem uma pessoa.
    Por fim, aconselho-te a reler aquilo que escrevi e, em vez de te deixares influenciar pela tua experiência pessoal, reflete sobre o alvo deste artigo: a crítica à atitude derrotista e egocêntrica da aluna em questão e não a defesa do sistema de acesso ao Ensino Superior em vigor. Não vou comentar o perfil dos profissionais de saúde em Portugal, porque, se o quisesse fazer, escrevia uma carta aberta aos profissionais de saúde e não uma carta aberta a uma aluna.

    Penso que és inteligente para perceber a mensagem.
    Espero que um dia superes essa tua mágoa, que claramente influenciou a tua interpretação daquilo que escrevi.

  7. Sara Norte says:

    Olá Inês. Gostei muito da carta que escreveste e concordo plenamente com o que dizes. A revolta da aluna é NORMAL e imensa gente que concorre ao ensino superior passa por isso, eu vivi isso e muitos dos meus amigos também passaram por isso. O sistema já é assim há imenso tempo. Eu entrei na universidade em 2000. Olhando em retrospectiva para estes 16 anos posso dizer que perante a "injustiça do sistema de acesso ao ensino superior" verifiquei várias situações: colegas que entraram exactamente no curso que queriam e adoraram, colegas que entraram exactamente no curso que queriam e não gostaram, alguns desses mudaram de curso outros desistiram e foram trabalhar. Também conheci aqueles que queriam desesperadamente um determinado curso e ficaram mais um ano a melhorar notas para poderem seguir o sonho e outros que apesar de quererem muito preferiram ir para um curso que não queriam ao invés de tentarem novamente. Conheci quem não quisesse continuar a estudar e começasse a trabalhar aos 18 anos e quem inesperadamente anos mais tarde entrasse na universidade em pós laboral. Também conheci quem tivesse entrado no curso com bolsa porque não tinha possibilidade para pagar os estudos e quem a tivesse perdido por não conseguir passar o ano. Em conclusão a revolta passa por muita gente, as circunstâncias da vida de cada um São únicas mas a forma como se dá a volta à questão é o mais importante. Seguir os nossos sonhos envolve muito trabalho e esforço. E não vale a pena ficar com mágoas e ressentimentos com o que poderia ter acontecido e vitimizar-se. Somos nós que fazemos o nosso destino e mais ninguém. A aluna que escreveu a carta se não quer sair do país tem outras opções, que envolvem mais esforço da parte dela. Cabe a ela decidir como quer resolver a questão. A carta dela ao presidente provavelmente deixou a consciência dela ligeiramente mais leve porque desabafou o que lhe ia na alma mas não deixa de revelar alguma imaturidade emocional, egocentrismo e vitimização.

  8. Inês Elias says:

    Concordo plenamente! Embora seja mais nova, já testemunhei casos de muito sucesso, outros nem tanto, mas o essencial é a forma como a pessoa reage. Se a Maria queria, efectivamente, criticar o sistema de ensino, deveria ter abordado o tema numa perspectiva menos egocêntrica. Se só queria desabafar sobre a sua frustração, não o devia fazer dirigindo-se ao presidente.

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