20/01/2019

Quando perdes tudo o que te define

Anxiety: the Worrier Pose
Gemma Correll

(If you want to read this in English, click here. It’s not a translation, it’s the same topic explained in another language.)

Já há muito tempo que não escrevo aqui. Eu sinto que escrevo isto demasiadas vezes, mas é verdade. Vocês estão habituados a que eu partilhe aqui os meus métodos de estudo milagrosos, a fórmula para atingir as notas perfeitas, o segredo para a harmonia entre todas as frentes de batalha da vida. Não me interpretem mal, de facto tudo isto resultou para mim em tempos. Em tempos…

Como sabem, comecei a minha licenciatura em Direito em setembro. A vida era fantástica! Entrei na minha faculdade de sonho, com a bolsa de estudo de sonho, tirei a carta de condução, fui embaixadora júnior da minha nova escola. Aparentemente, tudo ótimo. Aparentemente.

Em julho, começaram os primeiros prenúncios de uma das fases mais difíceis da minha vida. Antes de voar para Itália, o jantar caiu-me mal. Na noite anterior ao meu primeiro dia de trabalho de sempre, o jantar voltou a cair-me mal. Julho passou, Agosto chegou. As indisposições tinham passado até que… não, estavam de volta e piores. Eu sentia-me fisicamente tão frágil que tinha medo de ir dormir e não voltar. O medo de morrer absorveu a minha atenção por completo. No Algarve, com amigos, nunca fiquei até tarde na rua, com medo que algo me acontecesse. Era inédito. Quer dizer, já tive episódios de ansiedade antes, mas nunca tão incapacitantes. Com o aproximar de setembro, a situação só piorava. Mal conseguia comer com medo de que o meu corpo rejeitasse tudo, como acontecia até então. Culpava uma má alimentação, intolerâncias a certos alimentos e nunca percebi que a verdadeira causa de todo aquele mal-estar era o que estava para vir: uma fase avassaladoramente desconhecida.

Não vos minto quando digo que é assustador deixarem a escola onde estudaram durante seis anos, a cidade onde nasceram e viveram toda a vossa vida e ir para uma cidade nova, todos os dias, para uma faculdade, sozinha. A necessidade de assegurar resultados que mantivessem a minha bolsa abraçou-me sufocava-me. Nunca me senti tão sozinha, tão sem controlo do que se passava na minha vida. Só queria chegar a casa, deitar-me na cama e ficar lá, até ter que acordar no dia seguinte para repetir o processo extenuante de três horas de caminho mais seis horas de aulas intensas. Passei a evitar ir às aulas que não eram obrigatórias e raramente ficava na faculdade depois das aulas. Entretanto, comecei a sentir-me melhor. As indisposições passaram, consegui voltar a fazer a minha alimentação normal. O medo continua cá, claro, mas cada vez o ouço menos.

Entretanto, a minha recuperação veio tarde demais para compensar a falta de investimento que fiz num semestre inteiro e isso viu-se nas minhas notas. Não foram más de todo, mas não foram boas o suficiente para manter a bolsa de estudo. O meu medo de falhar concretizou-se. Falhei. Pela primeira vez na minha vida, eu não fui a inteligente. Nunca fui a engraçada, a extrovertida, a amável, sempre fui a inteligente, só. Vá, não é bem assim… Já fui a escuteira, a representante dos alunos, a que tinha um blogue, mas, com o tempo, tornei-me na inteligente. E, para mim, isso chegava, era bom, era ótimo. Até que deixei de o ser. As excelentes notas desapareceram e finalmente parei e pensei no que é que estava a fazer à minha vida, como é que eu alguma vez pensei que as boas notas seriam suficientes durante toda a minha vida?

Quando perdes tudo o que te define, tu tens de te encontrar outra vez. Tens de arranjar uma forma melhor de te definires, de te reinventares, de pensares no que afinal te faz diferente do vizinho do lado que não a tua prestação académica ou a tua beleza ou qualquer outra coisa efémera que consideres essencial em ti. É óbvio que custa imenso quando pensas que atingiste a perfeição (seja lá o que isso for) em algum campo da tua vida e, num espaço de meses, te vês obrigado a repensar em quem tu és e em quem tu queres ser. E isso é normal! Não há mal em errar, há mal em errar e ficar acorrentado ao erro. Crescer é assim e é ótimo. Agora que há um vazio em mim, posso preenchê-lo com aquilo que me faz feliz e que me torna o que eu sou, por exemplo, eu adoro aquilo que estudo, nunca fui tão feliz a estudar, e voltei a escrever.

Moral da história: tu podes atingir a perfeição temporária (se é que isso existe) e é das melhores coisas da vida, mas quando a perdes, não vale a pena ficar o resto da vida a tentar recuperar um momento do passado. Tens de tomar o passado como lição para atingires outros sucessos no futuro. Falhar, quando estamos habituados a parecer perfeitos, é das coisas mais duras, mas mais enriquecedoras que nos acontece.

Bem, em breve trago novidades menos metafísicas. Agradeçam a esta minha crise existencial e ao meu namorado (o meu suporte básico de vida) por ter renovado o contrato de hospedagem (ou lá o que isto é) desta plataforma.

One response to “Quando perdes tudo o que te define”

  1. […] (Se queres ler o mesmo artigo em português, clica aqui. Não é uma tradução, é o mesmo tema rel… […]

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

Don't miss a thing!

Hi! I'm Inês, a near Lisbon based brunette, currently starting a Law degree. If you want to get exclusive unpublished articles (such as my lasagna recipe), a lot of freebies and a monthly update on what's going on in here, don't forget to sign up to our newsletter.